domingo, 11 de outubro de 2015

Inocentes almas inquietas


Nos últimos dias, um sem número de almas inocentes têm vindo a público demonstrar a sua repulsa por qualquer perspectiva governativa à margem da coligação de direita que ficou à frente nas eleições. O desfile de inquietações começou com a disponibilidade demonstrada pelo PCP em viabilizar uma solução baseada na maioria dos deputados que comporão a Assembleia da República em resultado das eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015. 

O PCP não exigiu a sua presença num futuro governo. Apenas afirmou a sua vontade de inviabilizar qualquer solução de governo liderado por essa coligação de direita, e a sua disponibilidade para viabilizar uma outra solução, tendo apresentado um leque de nove propostas que considera fundamentais, não para uma rotura completa com a política de direita, mas para assegurar a concretização de soluções fundamentais para reverter o actual rumo político do país.

É pouco? Não. Mas essas inocentes almas acham que é demais. De onde lhes virá tanta inquietação?

Seja qual for a solução saída deste processo pós-eleitoral, três mitos se esfumaram com a atitude política do PCP:

O mito da eleição de governos e primeiros-ministros: as eleições, afinal, não elegem governos, mas 230 deputados à Assembleia da República.  E estes têm a responsabilidade de gerar as soluções governativas que possam reflectir a correlação de forças existente neste órgão de soberania.

O mito do voto útil: o voto dos eleitores, afinal, pode ser numa outra força que não PS ou PSD, sem que deixe de ser útil para determinar soluções governativas, pois é do quadro de correlação entre as forças políticas que garantam representação parlamentar que se pode garantir uma solução de governo mais próxima ou mais longínqua da perspectiva política sancionada com a opção de voto. Parece que até o irrevogável "Paulinho das feiras" o sabia, e em 2011 usou esse facto como argumento no debate com o seu futuro parceiro de coligação.

O mito do PCP como partido de protesto que não quer ir para o governo: o PCP, afinal, não se coloca à margem da construção de uma solução governativa que garanta pelo menos alguns progressos imediatos e essenciais relativamente à totalidade das suas propostas e programa eleitoral. Fica assim desmentida a ideia de que  o PCP se colocaria à margem de qualquer solução governativa por razões de mera ordem táctica, inadmissíveis aos olhos dos critérios da democracia burguesa.

E tudo isto o PCP dizia, muitos antes das eleições, há muitas eleições.

O outro mérito de tanta inquietação destas almas inocentes é o de mostrar quem é quem e quem pensa realmente o quê sobre a política em Portugal.

Isto desde as inflamadas inquietações sobre o eventual regresso ao PREC, tempos em que algumas das almas hoje mais inquietas eram dos mais responsáveis pelos comportamentos extremistas e provocatórios que hoje se apressam a denunciar. Ou os que agitando este e outros espantalhos, cassettes riscadas e papões empoeirados, vão ameaçando, velada ou explicitamente, com a chantagem da fuga de capitais e do bloqueio económico, aí sim, à imagem do que os seus parentes de classe e de política fizeram nos tempos do período mais aceso do processo revolucionário pós-25 de Abril. Por último, as almas inquietas mais comoventes são as que recusam qualquer solução à esquerda da dita coligação, seja por invocação de uma ética política que sacrifica propostas que diziam defender antes das eleições à sobrevivência do mito da eleição do governo, seja porque preferem, deliberadamente, as soluções da direita a abrir qualquer nesga de hipótese à sua esquerda. 

A expressão de tanta inquietação tem oscilado entre as peças de argumentário refinado, embora falacioso e as de delírio absoluto, mostrando que, desde que passem a mensagem que os donos da comunicação social desejam ver passada, qualquer bicho careta pode escrever umas coisas, mesmo que só ridículas.

A par do ódio e do medo instilado pela direita mais reaccionária, eis que no séquito de almas inquietas se acotovelam agora aqueles que ainda ontem, sob a máscara em que os reconheciam como mais ou menos de esquerda, carpiam todas as lágrimas por uma unidade ou convergência à esquerda que pareceria impossível de concretizar.

Tudo isto porque houve um processo eleitoral, ainda que num quadro de luta política altamente condicionado e desigual, que teve o resultado que teve. E mais ainda, porque houve pelo menos um partido, o PCP, que tirou desse resultado as consequências que mais respeitavam os votos que obteve, no quadro da coligação com o PEV. 

Porque o PCP, aparentemente, não só é (a) sério como se leva a sério. E isso, para as inocentes almas que se agitam, é uma singularidade inquietante.