quarta-feira, 28 de novembro de 2012

LIMPEZA BAFIENTA

 
A carga policial chegou ao interior da RTP.
 
Disseram as notícias que teriam sido entregues à PSP imagens não editadas da manifestação do dia da Greve Geral em frente à Assembleia da República, para identificação de suspeitos dos distúrbios que deram origem à carga policial. Após contraditório, demitiu-se o Director de Informação da RTP. Prometeu-se um inquérito, e noticiou-se que o mesmo tinha apurado que as imagens não saíram, mas foram vistas em local discreto no interior da RTP, com autorização daquele Director. Vai daí, e demite-se o resto da equipa da direcção de informação. Lestos, os administradores já têm gente para os lugares vagos.
 
Um exemplo de eficiência à portuguesa. Nem se percebe porque é que o antigo director demissionário diz que só foi ouvido no inquérito porque insistiu muito para o ser, e porque é que a comissão de trabalhadores da RTP classifica o mesmo inquérito de irrelevante, e de ter erros formais. Já o anterior director acrescenta que lhe terão dito, antes de ser ouvido, que as conclusões já estavam tiradas.
 
Independentemente do juízo ético que se possa fazer do caso, parece é que alguem foi bem prensado, e com uma cirúrgica manobra Goebbeliana (ou Relvista), de um passo só se matarm dois coelhos. O primeiro coelho é o precedente de imagens não editadas serem usadas como fonte de identificação, pondo a televisão a fazer de braço policial. O segundo coelho é por causa disso haver pretexto para varrer os resquícios vindos da anterior administração da RTP, cujo processo de demissão se seguiu à barulheira a propósito da privatização, numa relação causa efeito mal esclarecida, mas bem aproveitada pelo Governo.
 
Assim tão simples. E limpinho. E sem cheiro a esturro. Quanto muito, a mofo.

domingo, 18 de novembro de 2012

Nada de novo, tudo normal


Dia 14 de Novembro de 2012 foi dia de Greve Geral em Portugal. Foi uma das maiores greves de sempre em Portugal. Não tivesse acontecido o que aconteceu em frente à Assembleia da República, da Greve se diria o menos possível nos media. Mas a provocação montada em frente à Assembleia, serviu lindamente como desculpa para submergir a mediatização da greve debaixo dos escombros da encenação violenta. Não apenas para isso e no dia da Greve, mas nos dias seguintes, continuou a alimentar derivas fascizantes, protagonismos e teorizações espúrias.

Serviu ao governo, e ao seu pai espiritual sentado na Presidência da República, para desviar as atenções do impacto da Greve, e para ainda fazerem um figurão como corajosos enfrentadores da violência profissionalizada dos provocadores.

Serviu aos fascistas travestidos, que pululam disfarçados de democratas nas franjas e ao largo dos partidos da política de direita, mas que pouco a pouco vão pondo as suas verdadeiras ideias de fora, aqui ou além, num invejável (embora em condições favoráveis) sentido táctico de oportunidade. Para estes, não há distinção entre provocadores e manifestantes, entre  manifestação e Greve da CGTP-IN e a acção dos provocadores orquestrados, porventura até com a prestimosa maestrização das forças de segurança, esses cuja missão é em primeiro lugar protegê-los a eles, proto fascistas e seus cabeças de turco mais ou menos disfarçados.

Serviu àqueles cujo silêncio e inacção foram estrondosamente derrotados pela Greve,  pois deu-lhes espaço para que a sua inacção comprometida quase passasse despercebida.

Serviu aos que colocam a sua radicalidade egocêntrica ao serviço da desagregação da luta organizada, que se acotovelam para ver quem denuncia mais casos de manifestantes inocentes agredidos, detidos, sujeitos a condições desumanas e ilegais na sua detenção, paisanas instigadores da provocação. Daí pretendem extrair, em primeiro lugar, algum protagonismo que acalme a insaciabilidade dos seus egos incompreendidos. Em segundo lugar, buscar suporte para a tese do congénito carácter violento e anti popular das forças de segurança, esquecendo quanto é falacioso invocar este argumento sem condenar o aparato provocatório que deu propositadamente origem à violência policial, e para com o qual se colocam numa postura apologética. E com esta aparente condolência, esbatem o impacto e o significado mais fundo da Greve, que não passa por atirar pedras e apanhar bordoada da polícia, mas por um nível superior de organização e acção dos trabalhadores.

Serviu aos teóricos de pacotilha, que se atropelam para desacreditar as formas de organização e lutas sindicais, em particular as da CGTP-IN, supostamente enfraquecidas por um burocratismo anacrónico, segundo uns, e por um difuso mas crescente descontentamento anti partidário e anti "políticos" segundo outros, que impõem a "novidade" das acções espontaneamente promovidas nas "redes sociais" (ou organizadamente publicitadas nos media), novas formas de organização que para eles os escusam ao suor e fuligem operários com que têm de conviver se marcharem ao lado dos burocratas.

Será verdade que, postas assim as coisas, se deixa de ver com nitidez o que distingue todos estes grupos e as suas acções. Mas mesmo supondo que remem em direcções diferentes, a resultante das forças que aplicam é seguramente contrária aos interesses dos trabalhadores que construíram esta Greve Geral.

Em contraste, é certo que sem organização sindical de classe, independente e de massas, esta Greve não seria o que foi.

No fundo, nada de novo, tudo normal.