Nada de novo, tudo normal
Dia 14 de Novembro de 2012 foi dia de Greve Geral em Portugal. Foi uma das maiores greves de sempre em Portugal. Não tivesse acontecido o que aconteceu em frente à Assembleia da República, da Greve se diria o menos possível nos media. Mas a provocação montada em frente à Assembleia, serviu lindamente como desculpa para submergir a mediatização da greve debaixo dos escombros da encenação violenta. Não apenas para isso e no dia da Greve, mas nos dias seguintes, continuou a alimentar derivas fascizantes, protagonismos e teorizações espúrias.
Serviu ao governo, e ao seu pai espiritual sentado na Presidência da República, para desviar as atenções do impacto da Greve, e para ainda fazerem um figurão como corajosos enfrentadores da violência profissionalizada dos provocadores.
Serviu aos fascistas travestidos, que pululam disfarçados de democratas nas franjas e ao largo dos partidos da política de direita, mas que pouco a pouco vão pondo as suas verdadeiras ideias de fora, aqui ou além, num invejável (embora em condições favoráveis) sentido táctico de oportunidade. Para estes, não há distinção entre provocadores e manifestantes, entre manifestação e Greve da CGTP-IN e a acção dos provocadores orquestrados, porventura até com a prestimosa maestrização das forças de segurança, esses cuja missão é em primeiro lugar protegê-los a eles, proto fascistas e seus cabeças de turco mais ou menos disfarçados.
Serviu àqueles cujo silêncio e inacção foram estrondosamente derrotados pela Greve, pois deu-lhes espaço para que a sua inacção comprometida quase passasse despercebida.
Serviu aos que colocam a sua radicalidade egocêntrica ao serviço da desagregação da luta organizada, que se acotovelam para ver quem denuncia mais casos de manifestantes inocentes agredidos, detidos, sujeitos a condições desumanas e ilegais na sua detenção, paisanas instigadores da provocação. Daí pretendem extrair, em primeiro lugar, algum protagonismo que acalme a insaciabilidade dos seus egos incompreendidos. Em segundo lugar, buscar suporte para a tese do congénito carácter violento e anti popular das forças de segurança, esquecendo quanto é falacioso invocar este argumento sem condenar o aparato provocatório que deu propositadamente origem à violência policial, e para com o qual se colocam numa postura apologética. E com esta aparente condolência, esbatem o impacto e o significado mais fundo da Greve, que não passa por atirar pedras e apanhar bordoada da polícia, mas por um nível superior de organização e acção dos trabalhadores.
Serviu aos teóricos de pacotilha, que se atropelam para desacreditar as formas de organização e lutas sindicais, em particular as da CGTP-IN, supostamente enfraquecidas por um burocratismo anacrónico, segundo uns, e por um difuso mas crescente descontentamento anti partidário e anti "políticos" segundo outros, que impõem a "novidade" das acções espontaneamente promovidas nas "redes sociais" (ou organizadamente publicitadas nos media), novas formas de organização que para eles os escusam ao suor e fuligem operários com que têm de conviver se marcharem ao lado dos burocratas.
Será verdade que, postas assim as coisas, se deixa de ver com nitidez o que distingue todos estes grupos e as suas acções. Mas mesmo supondo que remem em direcções diferentes, a resultante das forças que aplicam é seguramente contrária aos interesses dos trabalhadores que construíram esta Greve Geral.
Em contraste, é certo que sem organização sindical de classe, independente e de massas, esta Greve não seria o que foi.
No fundo, nada de novo, tudo normal.
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