segunda-feira, 29 de outubro de 2012

"Re-..."

O passo do dia, ou o último coelho da cartola, se preferirem, vem com o nome de "refundação". Quando a gente desta laia começa uma palavra por "re-", é certo e sabido que é para nos sancionarem com mais uma acção acabada em "-er". Por isso, não houve desilusão ao confirmar que a dita refundação não tem qualquer intenção de suavizar o ritmo ou o modo do processo de destruição do nosso país, em que actuam as forças político-económicas do ocupante e dos colaboracionistas. Antes é uma tentativa para acordar um desmantelamento constitucional para permitir o que se chama de "reforma" (mais um "re-" que é para nos "-er") estrutural do Estado.

Nada de estranho, uma vez que o objectivo nunca foi outro. Não é a refundação ou a reforma um caminho a percorrer para um cumprimento dos planos do ocupante económico, antes nos planos deste e dos seus prestáveis colaboracionistas não está outra objectivo que não seja o desmantelamento de um tipo de Estado ainda configurado para amortecer as consequências da política económica e social que os rotativos agentes internos empenhadamente vêm impondo ao nosso país, ao arrepio da legitimidade democrática que deixa de lhes assistir quando a sua acção é maioritariamente contrária às palavras propagandeadas na caça ao voto.

Este é apenas mais um episódio. Aviltante, insultuoso, ignóbil, e merecedor de todos os adjectivos mais ou menos polidos que se lhes possa arremessar, mas apenas mais um episódio. Em boa verdade, esta telenovela já dura há quase quatro décadas. Mas como tudo o que é bem planeado, a fase actual é mais recente. O plano em marcha tem raízes fundas nos inícios da década passada. Não obstante os foguetórios, querelas de alecrim e manjerona, e as cortinas de fumo com que os seus fautores vão tentando encobrir a sua acção e os seus reais objectivos, os protagonistas vão exercendo uma acção coerente, cirúrgica, apoiada em meios colossais de dissimulação e propaganda. A este "plano" se voltará em mensagens futuras, seguramente, passo a passo.

Os colaboracionistas querem convencer-nos de que a peça agora encenada se chama "Impostos vs. despesa pública", mas se lermos bem o texto, é bem mais "Desmantelamento e impostos". Os colaboracionistas ainda tentam convencer-nos que o que fazem é para pagar "a" dívida: "Pagá-la ou bancarrota", chantageiam o povo subjugado. Quem se deixa convencer por esta conversa, ou é porque gosta dela, ou então ainda não percebeu que o resultado pretendido é menos salário, mais impostos e menos direitos.Mas parece que na verdade o que se quer é nunca mais conseguir pagá-la, porque essa é a caução que determina que trilhamos o caminho a nós reservado na reconfiguração da divisão social do trabalho a nível europeu e mundial.

O cumprimento da Constituição seria um móbil para uma política democrática e patriótica, de sentido oposto à seguida pelos acólitos do ocupante. Com isto digo que ela é muito mais que um obstáculo à política a que nos sujeitam. Assim, ela deve ser é cumprida, e não "re-" qualquer coisa para se ajustar à acção da camarilha. A tentativa de penetração da política de terror económico e social do ocupante no terreno constitucional tem apenas o mérito de destapar a sua agenda, e o papel dos colaboracionistas no sua implementação.

Travar o passo ao(s) inimigo(s) do povo, da Pátria e da democracia, é a tarefa dos dias actuais. Se for preciso, daí brotará uma qualquer "Re-" (com erre maiúsculo) que mude as agulhas do tempo e do futuro colectivo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A chama dos sonhos



Quando ontem à noite acabei de ver o Hugo, essa homenagem à fábrica de sonhos que é o cinema, pensei que sonhar não é um processo independente da construção histórica e social que é o indivíduo. Sim, para sonhar, é preciso ter condições para sonhar.

A arte, enquanto plataforma de projecção cultural, parece estar ligada à capacidade de produção de imagens. E o engenho significou a passagem da imagem para a transformação da realidade. Será que este processo se deu apenas porque fomos criados com uma inteligência capaz de o realizar? Acho que não, e acho que pensar que sim é uma deriva egocêntrica e estática.

Há bastantes evidências de que dois momentos chave da História do Homem foram a descoberta e o domínio do fogo. Os hominíneos já existiam antes disso. Caçadores, recolectores, nómadas, expostos a mil perigos de uma Natureza que não supunham sequer como dominar.  A descoberta e o domínio do fogo terão sido o início do domínio sobre a Natureza. Pensa-se que poderão ter inclusivamente actuado  no sentido de favorecerem alterações fisionómicas e fisiológicas nos nossos antepassados evolutivos, pelo simples facto de permitir cozinhar alimentos, tornando-os de mais fácil digestão, e propiciando mais energia disponível para a actividade cerebral. Alimentos cozinhados, aquecimento, protecção contra predadores, possibilidade de construção de instrumentos. Dormir melhor, comer melhor, estar mais protegido, ter energia extra para imaginar e fazer, criar. Arte e engenho.

Se os resultados deste processo se reflectiram no indivíduo, acredito que muito mais se tenham reflectido no acentuar da condição social do Homem. Aliás, os primeiros derivarão essencialmente destes últimos. O Homem passou a poder sonhar.

Todos os homens? Eis-nos nos dias de hoje, em que tanto da nossa realização se reduz a um preenchimento iterativo de aparências individuais, pelo menos não faltam incentivos para que assim seja. Tens itens, és um sucesso, não os tens, és um fracasso. E a responsabilidade é tua. Quem tem que procurar o teu sucesso és tu.

Faria isto sentido num contexto de igualdade de oportunidades? Escuso-me a sequer tentar responder a esta questão, na medida em que são tantas as variáveis envolvidas, que esse terreno teórico será sempre estreito e escorregadio.

Mas não é esse o contexto, pois não? Para fazer planos, é preciso poder fazê-los. É preciso poder sonhar. O problema é que ainda hoje a muitos faltam condições para comer, dormir, proteger-se dos inimigos. Muitos nascem e nada mais conhecerão que um conjunto de condições funestas que atiram a sua capacidade de sonhar e os seus sonhos para o fundo poço das suas existências. A sua responsabilidade individual é diminuta. Afinal, "eu nem sequer fui ouvido no acto de que nasci".

Um ancião americano falava num documentário sobre a sua experiência de migração de um Oklahoma exaurido para uma promissora Califórnia, quando criança. "Nunca nos faltou roupa nem comida, mas não tínhamos as outras coisas da vida. Mas quando não se tem, não se lhes sente a falta". Ou seja, se não posso ter a perspectiva, não a tenho. Isto é Estados Unidos da América, não Haitis,  Guinés ou os Bangladeshes deste mundo.

O que seria destes homens se lhes fosse permitido sonhar? O que seria deles com uma perspectiva? O desvario egocêntrico e estático dos dias de hoje leva à demissão de muita gente da necessidade de tentarem responder a esta questão. Não é com eles, quanto muito é com um ente que criaram à sua imagem e semelhança e que arbitra livremente as nossas possibilidades de sonhar.

E contudo, antes de se haver dominado o fogo, o fogo estava por dominar. 

Há chama para alimentar os sonhos dos que não podem sonhar. É preciso é dominá-la.