A chama dos sonhos
Quando ontem à noite acabei de ver o Hugo, essa homenagem à fábrica de sonhos que é o cinema, pensei que sonhar não é um processo independente da construção histórica e social que é o indivíduo. Sim, para sonhar, é preciso ter condições para sonhar.
A arte, enquanto plataforma de projecção cultural, parece estar ligada à capacidade de produção de imagens. E o engenho significou a passagem da imagem para a transformação da realidade. Será que este processo se deu apenas porque fomos criados com uma inteligência capaz de o realizar? Acho que não, e acho que pensar que sim é uma deriva egocêntrica e estática.
Há bastantes evidências de que dois momentos chave da História do Homem foram a descoberta e o domínio do fogo. Os hominíneos já existiam antes disso. Caçadores, recolectores, nómadas, expostos a mil perigos de uma Natureza que não supunham sequer como dominar. A descoberta e o domínio do fogo terão sido o início do domínio sobre a Natureza. Pensa-se que poderão ter inclusivamente actuado no sentido de favorecerem alterações fisionómicas e fisiológicas nos nossos antepassados evolutivos, pelo simples facto de permitir cozinhar alimentos, tornando-os de mais fácil digestão, e propiciando mais energia disponível para a actividade cerebral. Alimentos cozinhados, aquecimento, protecção contra predadores, possibilidade de construção de instrumentos. Dormir melhor, comer melhor, estar mais protegido, ter energia extra para imaginar e fazer, criar. Arte e engenho.
Se os resultados deste processo se reflectiram no indivíduo, acredito que muito mais se tenham reflectido no acentuar da condição social do Homem. Aliás, os primeiros derivarão essencialmente destes últimos. O Homem passou a poder sonhar.
Todos os homens? Eis-nos nos dias de hoje, em que tanto da nossa realização se reduz a um preenchimento iterativo de aparências individuais, pelo menos não faltam incentivos para que assim seja. Tens itens, és um sucesso, não os tens, és um fracasso. E a responsabilidade é tua. Quem tem que procurar o teu sucesso és tu.
Faria isto sentido num contexto de igualdade de oportunidades? Escuso-me a sequer tentar responder a esta questão, na medida em que são tantas as variáveis envolvidas, que esse terreno teórico será sempre estreito e escorregadio.
Mas não é esse o contexto, pois não? Para fazer planos, é preciso poder fazê-los. É preciso poder sonhar. O problema é que ainda hoje a muitos faltam condições para comer, dormir, proteger-se dos inimigos. Muitos nascem e nada mais conhecerão que um conjunto de condições funestas que atiram a sua capacidade de sonhar e os seus sonhos para o fundo poço das suas existências. A sua responsabilidade individual é diminuta. Afinal, "eu nem sequer fui ouvido no acto de que nasci".
Um ancião americano falava num documentário sobre a sua experiência de migração de um Oklahoma exaurido para uma promissora Califórnia, quando criança. "Nunca nos faltou roupa nem comida, mas não tínhamos as outras coisas da vida. Mas quando não se tem, não se lhes sente a falta". Ou seja, se não posso ter a perspectiva, não a tenho. Isto é Estados Unidos da América, não Haitis, Guinés ou os Bangladeshes deste mundo.
O que seria destes homens se lhes fosse permitido sonhar? O que seria deles com uma perspectiva? O desvario egocêntrico e estático dos dias de hoje leva à demissão de muita gente da necessidade de tentarem responder a esta questão. Não é com eles, quanto muito é com um ente que criaram à sua imagem e semelhança e que arbitra livremente as nossas possibilidades de sonhar.
E contudo, antes de se haver dominado o fogo, o fogo estava por dominar.
Há chama para alimentar os sonhos dos que não podem sonhar. É preciso é dominá-la.
Sem comentários:
Enviar um comentário